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Quando os dinossauros dominavam a sua rua – parte 2



Guiseppe Reichmuth e o quadro mais vendido aos romeiros de Aparecida do Norte de todos os tempos.

Uma das coisas mais divertidas de ser criança é poder imaginar coisas que nunca existiriam na cabeça de um adulto. Depois que a gente cresce fica difícil até de lembrar de qualquer coisa que tenhamos passado, então tendemos à romancear cada flash das nossas memórias e colocar cores onde nunca houve.

Entrei numa espiral infinita de lembranças da infancia no momento que descobri que iria ser pai. Eu já tinha gasto um bom tempo nadando na nostalgia das histórias sobre a familia Rufatto nas canções dos meus discos - em especial o ultimo que, entre outras coisas, destruia sem dó as canções favoritas do meu avô (exemplo abaixo), mas ai veio a gravidez e a coisa me acertou em cheio, ser pai de alguém é uma coisa séria e assustadora.

A primeira mudança “drastica” da gravidez foi a opção por ir morar num sobrado num bairro distante para os padrões de quem estava acostumado à 10 minutos de caminhada entre a casa e o trabalho. Lá háveria muito espaço para uma criança nascer, crescer e abrigar a visita dos parentes. Penso na época em que eu imaginava que coronel vivida era tudo (e realmente era), o Paraguai ficava no fim da rua do mercado e a Disneylândia ficava em Clevelandia - no caminho entre a cidade e a praia.

Meu maior medo de ser pai é estragar ou privar da imaginação boba - aquela que torna as crianças tão especiais. Antes de morar em Curitiba, ouvia as pessoas falando que não gostariam de criar seus filhos em apartamentos ou dentro de quintais fechados. Hoje vejo que isso é um tipo de terrorismo para justificar a opção pela vida no interior - mais ou menos como aquele filme “A Vila”, um filme meio chato, mas serve de exemplo. também serve de referência a super proteção da minha vó que nunca me deixou entrar num rio que não tinha um metro de profundidade. Moral da história: sei que às vezes é preciso proteger e às vezes é preciso deixar cair - obviamente deve ser muito difícil de deixar cair.

A geração atual de crianças parecer não ter apego as coisas e imagino que a expressão “bens duraveis” esteja próxima da extinção - afinal, hoje em dia nada dura muito, uns 2 anos no máximo. Acho que guardar lembranças (e discos são minhas maiores lembranças) é um exercício da memória afetiva para criar uma relação afetuosa com coisas que não dizem mais nada à ninguém, exemplo: a imagem acima deste texto. “O dinossauro atravessando a estrada” era um quadro “famoso” da década de 80 e morava no alto, quase no teto da lendaria Caça e Pesca - a loja de um dos meus tios. Era o quadro favorito do teto e havia vários enfeitando o teto - São Jorge lutando com um dragão, macacos fazendo poses engraçadas até o carro de F1 que Airton Senna pilotou na Lótus. Não sei o que aconteceu com todos eles, creio que foram parar no lixo na grande reforma que fizeram na loja no meio dos anos 90.

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A imagem do dinossauro era perturbadora demais para uma criança com muito tempo livre, se eles estavam extintos, o que aquele grandalhão estava fazendo ali? Um dos meus tios aproveitava a situação para contar que aquela “fotografia” havia sido feita na estrada que nos levava até São Francisco do Sul, em Santa Catarina.

Quando a família saia de férias fazíamos o mesmo percusso e ele avisava “estamos quase passando onde tiraram a foto do dinossauro”, “vamos ver o dinossauro”, mas nunca víamos nada - ele deveria estar dormindo em algum lugar.

Este quadro caiu em esquecimento depois que cresci, mas ainda o uso como referência para exemplificar coisas absurdas dos tempos atuais. Odiaria ficar preso em um tempo e transformar 2012 em um eterno dia da marmota onde sempre toca Sonny & Cher (veja “O feitiço do tempo” para entender). E quando minha filha tiver idade para ter alguma personalidade, provavelmente meu tempo - e tudo que é hype atualmente - terá passado, mas isso não é ruim - pior seria se transformar num integrante do Capital Inicial. Eu serei uma espécie de dinossauro do quadro, vivendo eternamente em uma cena que nunca existiu.