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:)

meat love.

28 passos. São três horas e a garota ainda não chegou. Nas outras mesas, fumantes, pedantes, idiotas, ingênuos, eu. A escória da humanidade desocupada num café – segunda feira, três da tarde. Observo a garota de vestido azul subindo a rua que acaba no shopping para ricos. Ela caminha, balança a bolsa pequena como Carlito e sua bengala. A escória. Improdutivos, infelizes para com suas barrigas, incapazes de mostrar alguma humanidade mesmo que isso signifique uma moeda para a mulher grávida que guarda os carros rua acima. Ela chega, ela nem queria estar ali, ela e a escória, pessoas cujo grande momento da vida é contemplar seu rosto velho no espelho e tentar achar alguma parte jovem, algum cabelo naturalmente preto. Isso e contar moedas para o pão – não para a dose de uísque. “Porque eu a quero?” “porque ele me quer” perguntas estúpidas que deveriam ser trocadas por “o que eu poderia oferecer que ela já não tenha melhor e mais caro?” porque sim, nem todas as coisas da vida são melhores porque são caras - sexo, por exemplo. Incomodo. Recuso-me a levantar e ir embora. Qualquer assunto - ninguém aqui quer falar. Dois pedaços de carne que mal se olham e mal se comem como num filme de Svankmajer. Lembro do dia que eu olhei para ela e disse “babe, its you” e ela sussurrou “shalala” e todo mundo na rua desapareceu de ciúmes do nosso amor. A escória, a carne, o cheiro, o chão. Era tudo mentira. Existe um nível como no boxe, o peso leve não pode enfrentar o peso pesado por pura vontade, o bom senso não permite. Nós, homens-idiotas-cheios-de-opniões não conseguimos aprender algo simples como as que os cachorros aprendem com 5, 10 dias de vida: a sua turma, o seu lugar. Então, não aprendemos e passamos boa parte da vida ali, sentado com pessoas que não queremos, que não foram feitas da mesma matéria que nós.